Sabe que essa história de ser artista é um lance difícil! E o pior nem é a profissão, tem os pares onde todos querem ter razão e tem o medo que o corpo docente tem de ser superado. O fato de serem de esquerda e amarem greves ajuda a piorar e o curso que deveria durar cinco acabou durando mais de sete anos, de 89 até 96, quando me formei. É muito mi-mi-mi, mas a batalha política nesta época foi feroz, a esquerda mobilizou mais greves do que semestres e isso me prejudicou muito.

Realmente curto esse lance de arte, mas considero que a forma provém da função e não de um devaneio extravagante. Neste momento histórico, a minha futura profissão estava sendo mudada radicalmente. O uso do computador passou a ser uma exigência para a correta execução do trabalho e os maiores e melhores arquitetos locais não dispunham de nenhuma aptidão para tal mudança.

Trabalhei nos catorze semestres que frequentei a faculdade, primeiro como estagiário depois como desenhista cadista no escritório de engenharia de João Pontual. Enquanto na vida real todo trabalho já era feito em computadores, desde os esboços iniciais até os detalhamentos de obra, meus nobres professores recusavam veementemente o seu uso, exigindo desenhos feitos a mão. Eu via claramente que o uso desta ferramenta iria facilitar muito o trabalho no futuro. Assim, baseei minha formação como arquiteto e urbanista no uso do desenho assistido por computador (CAD) e nas horas vagas, quando não estava estudando ou trabalhando eu desenvolvia pequenos aplicativos e bibliotecas que facilitavam o meu trabalho nos projetos de arquitetura, com tempo eu fiz uma coletânea deles e vendi junto com um treinamento básico para outros arquitetos e engenheiros.

Foi um sucesso!

Podemos dizer então, que para o ofício de arquiteto, eu sou um bom programador.