A moto e o Mecânico

Uma das minhas necessidades como motociclista é também ser um mecânico. Eu gosto de desmontar, seja pra consertar, aprender ou mesmo para estragar. Uma moto perfeita não teria tanta graça, pelo menos para mim. Talvez eu me sentiria oprimido por não poder deixar do meu jeito. Mesmo que este seja pior que o original.

Antes de comprar a dunna eu tinha uma sahara 350 e uma bros, antes uma xtz 125 e assim por diante já que são 37 anos de vida sobre duas rodas. A sahara foi uma das melhores, a minha preferida, mas vivia quebrada esperando as peças para ser consertada e por isso tinha também a bros. Cansei de arrumar e não encontrava nenhuma semelhante que eu pudesse comprar por causa da questão financeira. Gastar dinheiro com moto não é e nunca foi minha prioridade, mesmo apaixonado pelo tema tenho casa e família para priorizar.

Para piorar, sou adepto da prática “faça você mesmo” e me reservo a primeira tentativa de conserto para a maioria das situações. Assim, quando algo estraga eu me prontifico a fazer valer a máxima “saiba fazer antes de saber mandar fazer” e munido das minhas várias ferramentas eu coloco minhas mãos à obra, neste caso mãos ao conserto.

Minha primeira incursão na dunna foi remover os baús originais, colocar o baú da sahara direto sobre a grelha e instalar meu rastreador, coisa pouca. Logo depois foi um desmontar pra limpar, a moto não tinha quebrado nada, mas mesmo assim eu queria ver por dentro, assim o fiz e a moto continuou de boa. Então resolvi instalar o thermotape no começo do escapamento, brincadeiras de uma manha de domingo.

Até aí estava tranquilo, meu discurso era: “pelo menos não estragou ainda”. Eu sabia que essa fala não iria durar muito, mesmo eu rodando pouco, ela é chinesa e sabe como é. Num passeio onde fui fazer uma entrega à 150km, resolvi ir de moto e fazer um teste mais pesado no tocante à velocidade. Foi de boa... mas na volta...

Sim, na volta deu problema. Por causa da vibração, o miolo da chave criou folga e a moto se desligava continuamente. Sorte que tinha uma borrachinha de dinheiro que, posicionada no local certo tracionava a chave mantendo o contato. Chegando em casa, saquei minhas ferramentas, desmontei o estojo e o problema estava sanado.

Até aí tudo bem, a moto completou 12mil km sem ter estragado nada caro. Já estava no lucro, a sahara não durava isso sem um cabeçote ou algo pior. Então ela estragou a bateria, a ignição estava pesada e somando que ela ficava muito tempo parada e lá se foram quatrocentos mangos. Mandei bala em uma bateria moura de 14 amperes. Só que a compra não resolveu o problema, a bateria que eu comprei não era boa e a partida continuava lenta e pesada, durou menos de um ano e, antes de eu ter dinheiro para substituir novamente a bateria tive que sofrer um pouco.

Sair de casa não era um problema pois minha garagem fica acima da rua e eu pensava comigo mesmo, um tranquinho básico não mata ninguém. Só tinha que tomar cuidado para parar a moto em um lugar elevado. Um belo dia de manhã a moto não ligou na descida da garagem e eu desci com o carro e um cabo de chupeta. Observei que, mesmo com o carro ligado e com um cabo bem grosso a partida foi lenta e pesada e me estalou que a causa poderia ser o motor de partida. O motor de partida estava encrustado com fuligem do carvão de contato. Uma vez limpo a partida da moto ficou ótima, rápida e não drenava totalmente a bateria. Voltou a ser zero km, custo zero.

Desde que eu comprei esta moto me queixava que a suspensão traseira era muito dura para meu dia-a-dia, claro que a moto foi “projetada” para trafegar com os baús originais cheios e com garupa e assim fica bem confortável. Contudo, não é esse o uso que eu faço dela. Já na primeira oportunidade removi os baús laterais e nunca ando com garupa.

Assim, para amolecer a moto basta soltar o pré-tensionador da mola, que fica estrategicamente escondida no meio do quadro. Tive que desmontar o banco, a bateria e o filtro de ar para então remover o amortecedor da moto. No máximo da soltura a mola ainda estava muito tensionada então simplesmente removi a contra porca.

Não chega a ser como a bunda-mole da sahara que flutuava, mas agora minhas costas não sofrem o impacto direto dos milhares de buracos do caminho. Em velocidades mais altas a suspensão traseira mais dura dava uma sensação de estabilidade maior, testei em minha ultima incursão e mesmo na máxima a moto não dança como a sahara e a falcon.